A BÍBLIA SOB ESCRUTÍNIO - O GRANDE
QUESTIONAMENTO
[A Bíblia sob escrutínio - Emerson Alves Borges]
Adaptado por Aparecido de Bebedouro
A vida do ser humano é
curta e passageira, cheia de imprevistos e mudanças que podem levá-lo do êxtase
ao desespero, uma caminhada cheia de obstáculos rumo a morte. Sem a menor chance
de fugir dessa verdade cruel, o ser humano tenta de todas as formas encontrar
uma explicação que possa amenizar esta triste sina. Do intelecto humano já
surgiu de tudo, desde imortalidade da alma a reencarnação, de vida eterna no céu
ao tormento eterno no inferno de fogo ou talvez uma chance de purificação num
purgatório ou limbo, sem falar num paraíso junto a Alá ou um estado de elevação
espiritual chamado nirvana, tudo isto baseado numa sensação chamada por muitos
de fé, palavra essa que denota firme convicção em algo a despeito de qualquer
tipo de prova ou critério objetivo de verificação, portanto algo sem evidência
ou comprovação clara.
Desde os tempos remotos o ser humano tenta desvendar este
mistério. Os antigos povos sumérios e acadianos já tinham suas crenças sobre
vida após a morte e algum tipo de adoração a antepassados falecidos. Os mortos
eram enviados para um mundo subterrâneo do qual não havia retorno. Os vivos
reverenciavam os mortos, pois acreditavam que assim garantiriam o bom andamento
das coisas no mundo dos vivos. Não existia concepção de julgamento pós-morte
entre os mesopotâmicos. Acreditava-se que o “espírito” dos mortos atravessava um
rio até o “sombrio” mundo dos mortos, onde permaneceria pela eternidade.
Os maias, astecas e incas chegavam a fazer sacrifícios
humanos, arrancando o coração da vítima ainda por pulsar e bebendo seu sangue
diante do Deus Sol, numa tentativa de prolongar sua vida e acalmar sua
divindade. Nas festividades da colheita os astecas davam as vítimas de
sacrifícios taças de chocolate para que as almas chegassem mais rápido ao céu de
uma forma que agradasse as divindades, pois o chocolate era considerado o
alimento dos Deuses. As vítimas sacrificiais deveriam ser perfeitas e havia
grande honra em conhecerem e serem escolhidas pelo imperador, tornando-se,
depois da morte, espíritos com caráter divino que passariam a oficiar junto aos
sacerdotes.
No antigo Egito o processo de mumificação era uma tentativa
de vencer a morte. Quando o corpo morria sua alma ia para o Reino dos Mortos.
Enquanto a alma residia nos Campos de Aaru, o Deus Osíris exigia pagamento pela
proteção que ele propiciava. Acreditava-se que colocando bastante riqueza junto
ao morto, ele teria mais facilidade em sua outra vida. Obter a recompensa no
outro mundo era uma verdadeira provação, exigindo um coração livre de pecados e
a capacidade de recitar encantamentos, senhas e fórmulas do Livro dos Mortos. No
Salão das Duas Verdades, o coração do falecido era pesado contra uma pena da
verdade e justiça, retirada de um ornamento na cabeça da deusa Maet. Se o
coração fosse mais leve que a pena, a alma poderia continuar, mas, se fosse mais
pesado, a alma era devorada pelo demônio.
No poema épico Odisseia, Homero refere-se aos mortos como
“espectros consumidos”. Uma ultravida de eterna bem- aventurança existiria nos
Campos Elísios, mas estaria reservada para os descendentes mortais de Zeus. Em
seu Mito de Er, Platão descreve almas sendo julgadas imediatamente após a morte
e sendo enviadas ou para o céu como recompensa ou para o submundo como punição.
Depois que seus respectivos julgamentos tivessem sido devidamente gozados ou
sofridos, as almas reencarnariam. O Deus grego Hades é conhecido na mitologia
grega como rei do submundo, um lugar gélido entre o local de tormento e o local
de descanso, onde a maior parte das almas residiam após a morte. Os romanos
tinham um sistema de crenças similares quanto à vida após a morte, com Hades
sendo denominado Plutão. O príncipe troiano Enéas, que fundou a nação que se
tornaria Roma, visitou o submundo de acordo com o poema épico Eneida (Junito de
Souza Brandão, A vida após a morte na Grécia Antiga.
Povos tribais na Melanésia, na Polinésia, na Nova Guiné, na
Índia, na Ásia, na África e nas Américas do Sul e do Norte, acreditam que os
espíritos dos mortos são capazes de infligir todo tipo de danos aos vivos, sendo
os parentes próximos considerados como os mais).
Todas estas crenças refletem a inconformidade do ser humano
diante da morte. Muitas pessoas não satisfeitas com a esperança do além túmulo
desenvolveram crenças relacionadas com poções mágicas, águas milagrosas ou
árvores da vida que supostamente poderiam prolongar a vida eternamente.
Os alquimistas chineses criaram vários elixires contendo
cinábrio, enxofre, arsênico e mercúrio. Joseph Needham fez uma lista de
imperadores que morreram provavelmente por ingerirem esses elixires. Na
mitologia grega a Ambrosia, o manjar dos deuses do Olimpo era tão poderoso que
se um mortal o comesse, ganharia a imortalidade. Segundo os alquimistas
europeus, um elixir poderia ser sintetizado por meio da Pedra Filosofal
prolongando a vida somente até que um acidente os matasse. Johann Conrad Dippel
teria elaborado um óleo animal, chamado de Óleo de Dippel, que alguns
acreditavam ser o elixir da longa vida. Uma destacada lenda urbana diz que o
cientista Isaac Newton criou e bebeu essa poção, mas em vez de proporcionar- lhe
a vida eterna, proporcionou-lhe a morte.
O clássico mito sumério “A Epopéia de Gilgamés”, uma das mais
antigas obras literárias conhecidas narra a incessante busca do herói por uma
fonte milagrosa que curava e tornava a pessoa imortal. Pausànias, geógrafo e
historiador grego do 2º século d.C., misturando lenda e realidade, falava de uma
fonte que chamava de Calatos, situando-a próximo a Náuplia, no Peloponeso, na
qual Hera se banhava para parecer sempre jovem e bela a Zeus, seu marido.
Alexandre, o Grande, teria procurado pela fonte da juventude (ou pelo rio da
imortalidade) durante sua campanha na Índia. Uma das razões pelas quais Fernando
e Isabel, os Reis Católicos da Espanha, patrocinaram as viagens de Cristóvão
Colombo era encontrar a fonte da juventude. O explorador espanhol Juan Ponce de
León (1460-1521) tinha mais de 50 anos quando empreendeu a procura da fonte da
juventude e do rio da. Obviamente, todos estes esforços se mostraram inúteis e
acabaram em desilusão.
Alguns escritos religiosos da antiga Caldeia afirmam que
próximo de Eridu havia um jardim com uma misteriosa árvore sagrada plantada por
divindades, cujas raízes eram profundas e os ramos atingiam o céu. Era protegido
por espíritos guardiões onde nenhum homem poderia entrar. Na antiga literatura
babilônica há frequentes referências à árvore da vida. Representações da árvore
são frequentes em baixos-relevos e selos de alabastro. Seus frutos supostamente
conferiam vida eterna aos que comessem deles. Os antigos egípcios, também
possuíam lendas similares sendo que numa delas se apresentava a crença de que,
depois do Faraó morrer, havia uma árvore da vida da qual teria de comer para se
sustentar no domínio do seu pai, Rá. Na mitologia grega acreditava-se que nos
Jardins das Hesperides, localizado numa ilha do oceano existiam as maçãs de
ouro. Eram muito famosos na antiguidade, pois era lá que fluíam as fontes de
néctar pelo divã de Zeus, ali a terra exibia as mais raras bênçãos dos deuses.
Os persas possuíam uma tradição duma árvore da vida, a haoma, cuja resina
conferia a imortalidade. A tradição chinesa menciona sete árvores maravilhosas.
Uma delas, que é de jade, conferia a imortalidade pelo seu fruto. A mitologia
escandinava fala de uma árvore sagrada chamada Yggdrasill, sob uma de suas
raízes emanava uma fonte em que residia todo o conhecimento e toda a sabedoria.
A mitologia nórdica fala de uma Deusa chamada Iduna que guardava numa caixa as
maçãs da imortalidade, que os Deuses partilhavam a fim de renovar a juventude.
Segundo a bíblia, a árvore da vida era uma das duas árvores especiais que Deus
colocou no centro do jardim chamado Éden. O primeiro casal humano foi impedido
de alcançar esta árvore após terem desobedecido ao mandamento divino. Foram
assim expulsos desse jardim ou paraíso original. Como forma de impedir que
alguém voltasse a entrar no jardim e consequentemente comesse dos frutos da
árvore da vida, Deus colocou criaturas sobre- humanas chamadas querubins, que
possuíam uma espada de fogo que girava continuamente.
Estes exemplos nos mostram que o ser humano desde seus
primórdios, busca desesperadamente achar um sentido para a vida, um objetivo
para sua existência. De onde viemos? O que fazemos aqui? Para onde vamos? Porque
a vida é tão atribulada? O que significa a morte? Esses e muitos outros
questionamentos têm angustiado a humanidade. Quando a morte lhe parecia iminente
o pintor francês Paul Gauguin pintou um quadro descrito como “derradeira
expressão da força artística”. O livro “Paul Gauguin 1848-1903: O Sofisticado
Primitivo” (em inglês) diz: “O espectro da atividade humana abrangido pelo
quadro cobre todo o curso da vida, do nascimento à morte... Ele interpretava a
vida como um grande mistério.” Gauguin chamou esse quadro de “De onde viemos? O
que somos? Para onde vamos? (D’où venons-nous? Que sommes-nous? Où allons-nous?).
O quadro de Gauguin levantou perguntas sobre o sentido da vida. Alguns preferem
não pensar muito sobre tais assuntos, acham que devemos viver a vida da melhor
maneira possível, sem muita preocupação com este tipo de questão, pois refletir
sobre isso não levará a nada e acabaremos frustrados e se insistirmos neste tipo
de questionamento ficaremos deprimidos.
Mas o intelecto humano não se contenta em apenas aceitar as
coisas como são, afinal é isso que nos separa dos demais animais, que
simplesmente vivem suas vidas sem questionar o sentido dela. Os animais
irracionais não questionam sua origem, o objetivo de estarem aqui e para onde
vão, suas preocupações se resumem em conseguir alimento, fugir dos predadores e
perpetuar a espécie através do acasalamento, aliás, nem podemos dizer que essas
coisas são uma preocupação, mas sim um instinto natural que comanda suas vidas.
Já o ser humano é um animal racional, que acumula conhecimento através das eras,
tem a capacidade de se auto avaliar e aprender de seus erros. Porém é
imprevisível nos seus atos, pode num momento fazer coisas terríveis e em outro
demonstrar o mais sublime amor.
Tanto é assim que não nos conformamos em ser um animal mais
evoluído, não, precisamos ser algo mais, é necessário haver um propósito para
nossa existência, temos de fazer parte de algo maior, afinal somos segundo a
bíblia a imagem de Deus, criados a sua semelhança, filhos de um ser superior que
se preocupa conosco, que está interessado em nossas decisões, que se importa com
nossas ações. Desta forma nos sentimos importantes, queridos e amados, quem não
gosta de si sentir assim? Esta crença num ser transcendental massageia nosso
ego, eleva nossa autoestima. “Se não existisse Deus, então seria necessário
inventá-lo” já dizia Voltaire (Si Dieu n'existait pas il faudrait l'inventer.
Collection complette des oeuvres de Voltaire. Volume 22, página 406). Esta frase
define bem a necessidade do ser humano de crer em algo superior. E realmente a
humanidade desde o começo de sua história tem de alguma forma criado algum tipo
de deidade, recorrendo a está nos momentos de dificuldade. Há traços de
religiosidade nas mais antigas formas de expressão, desde desenhos rupestres
encontrados em cavernas datados do período Paleolítico às formas de escrita mais
primitivas como as cuneiformes e os hieróglifos egípcios.
Adaptado por Aparecido de Bebedouro